quarta-feira, 9 de março de 2011

A BATALHA DE SALAMINA

Depois da batalha das Termópilas, os atenienses evacuaram-se da cidade - mas para armar uma emboscada marítma, tal como urdida pelo gênio militar de Temístocles. Que astúcia admirável! Veja o vídeo e depois leia o comentário abaixo.



Que curioso fenômeno esse de uma cidade ostracisar o seu próprio salvador, hein?! Certamente, o medo da tirania, advindo da memória da severidade de Hípias (devido à ira provocada nele no ano de 514 pela tentativa sem sucesso de alguns aristocratas de matá-lo), teve um papel crucial.

É importante pontuar que Temístocles não foi o primeiro que, depois do ostracismo, foi buscar asilo na Pérsia. Hiparco, da família dos descendentes de Psístrato - nobre militar que ganhou apoio popular e tomou o poder como tirano de 561 até sua morte em 527 a.C. -, na ocasião em que foi o primeiro a sofrer o ostracismo, em 487 a.C., fugiu para Pérsia, confirmando os temores do povo.

Para quem franze o cenho contra Psístrato por ele ter sido um "tirano", é bom lembrar que túrannos é uma palavra não-grega que não tinha necessariamente conotação de crueldade ou opressão. Sob Psístrato, Atenas floresceu. Edificações grandiosas foram projetadas, poetas esplêndidos foram patrocinados, cerâmicas belíssimas foram criadas, promovendo um crescente sentimento de autoconfiança nos atenienses desse período.

Outra coisa importante de se levar em conta é que Psístrato era parte diretiva de uma classe que, desde o século VIII, governava a maioria das cidades gregas. Eram os senhores aristocráticos locais, chamados de basileus, que, reconhecendo apenas com relutância qualquer forma de controle central, mantinha com ardor sua independência exigindo que todos os seus membros  fossem, antes de tudo, leais para com a família, o clã e os seguidores.

Só aos poucos os laços locais de lealdade começaram a concentrar-se na comunidade de uma única cidade e os nobres passaram a reconhecer a autoridade central de uma só família que detinha a realeza. Em Atenas, por exemplo, foi o herói Teseu quem, segundo a tradição, unificou a Ática e deu à cidade um Conselho central no qual os nobres da região podiam reunir-se.  Eram os sucessores do Conselho criado por Teseu, um grupo de famílias aristocráticas, que, por tradição, governavam em Atenas e mantinham o seu direito exclusivo aos cargos de direção.

A forma de governo era oligárquica, baseada na riqueza e no nascimento, o que gerou descontentamento principalmente naqueles que, apesar de terem adquirido riqueza, estavam fora das aristocracias dominantes e se ressentiam de sua falta de influência. O descontentamento e o poderio militar dos cidadãos foi, então, explorado pelos ricos não-nobres em sua busca de conquistar poder pessoal, como foi o caso de Cílon, um ex-vencedor das Olimpíadas que, em 640, tentou dar um golpe de estado quando a atenção dos cidadãos estava distraída por um festival religioso.

Foi para amenizar o descontentamento que Drácon, um legislador ateniense, publicou, em 621-20, um código de leis que veio a tornar-se proverbial por sua severidade. Essa lei limitou os poderes da família do morto na vingança que poderia exercer impondo uma regra sobre os procedimentos que deveriam ser tomados nos casos de assassinato.

Afinal, disputas entre famílias dominavam a política ateniense e levavam fatalmente a mortes que acabavam se multiplicando em sucessivas vinganças por conta dos laços de lealdade locais entre as famílias. Com a lei de Dracon começava a haver algum controle dos impulsos que tendiam a se exceder muito facilmente nesses gregos antigos, seja a ira, o sentimento de revolta ou o desejo de vingança, como bem expressa o alto valor que, segundo Tulcídides, os atenienses atribuíam à vingança comparativamente à autopreservação.

Entretanto, essa lei era insuficiente já que havia descontentamento por outros motivos, como a dívida dos camponeses, que os forçavam a se tornar escravos, e o valor do pagamento aos senhores. Sólon, membro do Conselho em 594-93, a fim de evitar condições para a emergência de tiranos, aliviou a opressão das dívidas e rompeu com a exclusividade ao Conselho daqueles que eram ricos e descendentes de famílias historicamente ligadas ao Conselho, abrindo lugar para quatro classes com base na riqueza agrícola. Ele também instituiu um Conselho Popular de quatrocentos representantes.

A liderança dos aristocratas na comunidade ateniense se viu ameaçada, momento em que o nobre Psístrato, com apoio popular, tomou o poder como tirano. Hípias, citado nesses vídeos sobre as batalhas contra os persas, teve o poder transmitido pelo pai em 528. Em 510, Cleômenes, rei espartano, atendendo ao apelo de alguns aristocratas exilados de Atenas devido à perseguição política, expulsou Hípias e sua família de Atenas.

Duas famílias aristocráticas, encarnadas na figura de Clistenes e Iságoras, lutaram, então, pelo poder. Clístenes, ao fracassar, fez um pacote de propostas que angariou o apoio popular e, assim, "trouxe o povo [demos] para junto dos seus", como bem afirmou Heródoto. É importante pontuar que demos é o plural de dêmoi, foco das relações de lealdade, aldeia que compunha com outras aldeias grupos que, por sua vez, constituiam uma tribo.

Até então haviam 4 tribos, baseadas no parentesco e que se uniam por contiguidade territorial. Clístenes criou mais 10 tribos que ultrapassavam a velha fronteira natural permitindo que homens até então excluídos da cidadania pudessem obtê-la, o que criou no cidadão comum um sentimento de participação, de auto-confiança e de liberdade em relação aos laços com o senhor local. 

Todas essas decisões foram tomadas na assembléia dos cidadãos, que, aos poucos, sob a influência predominante dos aristocratas (influência que durou 80 anos), passou a exigir que todas as questões importantes passassem por ela a fim de serem submetidas a discussão e posterior decisão, o que abriu caminho para a democracia radical no final do século V.

Essa história faz pensar que a democracia não foi, senão, portanto, produto de um processo que teve contribuição importante da própria aristocracia ao criar propostas e instituições populares para a conquista e sustentação de seu próprio poder.


Fonte:
JONES, PETER V. (org). O mundo de Atenas. Martins Fontes, São Paulo, 1997.

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